"O Presidente da República inaugurou em Bragança a Biblioteca Adriano Moreira, instalado num edifício que recolhe já dezassete mil livros doados por aquele mestre, bem como as suas condecorações e vários diplomas e vestes académicas.
A nova Biblioteca está instalada no antigo colégio dos Jesuítas, que foi totalmente recuperado, e situa-se numa área que confronta com uma praceta a que foi dado o nome do Prof. Doutor Adriano Moreira, Presidente do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa.
O Prof. Doutor Adriano Moreira é natural de Grijó de Vale-Benfeito, concelho de Macedo de Cavaleiros. O seu espólio fica assim na terra transmontana que tanto ama e que se orgulha de ser o seu berço. O mestre, O mestre, ao agradecer a homenagem que lhe prestou o Presidente da República, sublinhou que aquele acto representa igualmente "a luta contra os políticos que são altamente responsáveis pela interioridade"."
Excerto do discurso do Professor Adriano Moreira:
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Naturalmente, eu fico feliz com o carinho com que receberam esta doação de uma Biblioteca, que eu fiz com modéstia suficiente e sabendo que outras pessoas deram já este exemplo, e eu quero recordar duas, uma do meu tempo de criança, outra felizmente ainda viva. O primeiro, o Abade de Baçal, que tanto contribuiu para a ciência Portuguesa, e sempre sem deixar Trás-os-Montes. E depois viva, a Graça Morais. A contribuição que ela fez e o Museu que aqui temos. E isso é um grande exemplo do carinho, da dedicação, da vontade de contribuir para o fortalecimento das instituições.
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Depois, não quero demorar muito tempo, quero dizer algumas palavras sobre a nossa gente, e porque é que eu dou tanta importância a estas questões. Em primeiro lugar, nós somos de uma região que foi sempre pobre. A minha família era de gente pobre. Mas eu recordo a memória do meu avô paterno, que eu não conheci, o avô Acácio, que trabalhava num moinho, nasceu, viveu e morreu no século XIX, teve oito filhos, e nenhum era analfabeto. O meu outro avô, que também teve oito filhos, era já de um meio onde existiam professores primários, teve igualmente oito filhos. Enterrou cinco. Mas também, nenhum era analfabeto. E quando eu tomei esta decisão, foi sobretudo a pensar nessa gente, que é a que mais me lembra quando os anos passam. Eu tive a felicidade de lidar com gente ilustríssima em variadíssimos países, mas hoje quando penso nas origens lembro-me mais frequentemente, por exemplo da minha tia Ana, Está em S. Paulo, emigrante, fez 102 anos há uma semana. E ainda se lembra de Trás-os-Montes. E ainda tem o meu retrato pendurado no quarto dela.
Lembro-me também da Maria boleira, em relação à qual já tenho uma privação enorme, cada vez que eu chegava eu tinha uma bola de azeite à minha espera. Já não tenho quem me traga a bola de azeite.
Lembro-me do tio Manuel fiscal, que quando se despedia de nós, dizia sempre, “saúde ao dinheiro, que deus não pode dar tudo!” E nós íamos confortados com esse apoio. E isso, faz com que o meu espírito permanentemente tenha a imagem dos emigrantes, que sempre fomos, do meu pai emigrante para a grande cidade, para a comunidade transmontana, de Lisboa, que como sabem é uma cidade feita por subscrição nacional, não há outra razão para termos uma cidade de Lisboa como aquela, Polícia de Segurança Pública, a minha mãe a trabalhar duro, e imagino os dois, algum dia no descanso do trabalho dela, e ele também cansado, tendo decidido isto: o rapaz tem de tirar um curso superior! É notável! É notável! E reeditaram isso, a minha irmã, que está aí, ela também foi orientada para fazer, e cumpriu, o Curso de Medicina. E isto é uma demonstração da capacidade dos Transmontanos. O avô moleiro que não tinha filhos analfabetos… tantos exemplos temos nesta província. Os dois emigrantes cheios de dificuldades, dizem, há um salto a dar. O rapaz tem que fazer o curso superior, e quando ela nasceu, ela também. E realmente fez esse curso superior.
Eu encontrei comunidades de transmontanos em muitos lugares por onde andei. Mas sobretudo nos sítios onde havia comunidades de origem Portuguesa, a solidariedade deles era total. Não posso esquecer, um dia que cheguei ao colonato da Cela e aquilo que estava à minha espera eram alheiras e folar… E, dito isto, queria juntar-me àqueles que estão não apenas a teorizar o problema da interioridade, haverá aqui um debate em Bragança depois de amanhã, organizado pelo Senhor Presidente da Câmara, com a concorrência de Professores Universitários Transmontanos, que vêm cá discutir o problema, queria dizer que apoio inteiramente a solidariedade das sociedades civis transfronteiriças, como está a acontecer neste momento, nesta região, já com manifestações importantíssimas, de solidariedade dessas sociedades civis, o que implica uma enorme defesa das identidades, o que implica uma mensagem para os responsáveis, também volto ao tema do ensino, que parecem andar a tratar as humanidades com o descuido de quem repara que não tem o retorno financeiro, mas que se esquecem que não há tecido social identificador se as humanidades não forem cultivadas. Mais uma vez apelo a que se considere que é matéria de soberania, aquilo de que estamos a falar.
Para terminar, queria fazer uma lembrança, uma dedicatória a um livro meu, que talvez seja o último que vai sair. A nossa emigração ao longo dos tempos foi enorme.
Teve várias causas. Hoje foram migrações de estado, a conquista de território mobilizou as gentes para isso. A expansão, mobilizar a gente para isso. Os milhares de rapazes que saíam por ano, para isso, para essa tarefa. (...)"
Excerto do discurso do Sr. Presidente da Câmara de Bragança, Jorge Nunes:
" (...)
Ao Senhor Prof. Adriano Moreira, fazemos a presente homenagem que perdurará por gerações, agradecimento extensivo à esposa e filhos, pela doação feita à região, e acolhida pelo município de Bragança num espaço de estudo e cultura. Ocupado em 1562 pelos Jesuítas como colégio, por onde passou Miguel de Cervantes e que o Duque de Bragança pretendeu transformar numa instituição de altos estudos de artes e teologia, que viesse a tornar-se numa “Universidade muito honrada”, espaço onde milhares de Brigantinos adquiriram as bases de uma sólida formação cívica que lhes permitiu, desde sempre, afirmarem a identidade e a determinação dos Transmontanos.
Reconhecemos o Prof. Adriano Moreira como um dos mais insignes representantes vivos da Identidade Transmontana, um exemplo de empenhamento cívico e patriótico, e que, na vida universitária, adquiriu o respeito e a admiração da comunidade científica nacional e internacional.
O Reitor da Universidade Católica, Prof. Manuel Braga da Cruz, refere-se a Adriano Moreira, nos seguintes termos: “o Prof. Adriano Moreira foi buscar a este povo transmontano que é o seu, as qualidades de tenacidade na decisão e capacidade de resistência na adversidade, a nobreza de espírito que fez dele uma referência respeitada por todos, admirada por muitos, geralmente identificada como um verdadeiro Senhor na vida pública portuguesa”.
Resistimos contra as agressões à interioridade, inspirando-nos nos exemplos de inteligência, verticalidade e frontalidade, dos muitos milhares de transmontanos que, ao longo de séculos, deram o seu melhor ao país. País que nas últimas décadas concentrou metade do poder de compra em cerca de 5% do território, fruto de uma cultura centralista demasiado forte, que contribuiu para as excessivas desigualdades entre cidadãos e regiões, retirou recursos ao interior, reduziu e desvalorizou a iniciativa regional e empobreceu o país.
(...)
Sentimos ser urgente dar um salto qualitativo na política regional, orientando-a para objectivos de coesão, investindo em recursos para a competitividade e inovação, numa abordagem das especificidades e competências das regiões, visando o bem-estar económico, social e ambiental. Para isso, é necessário dar voz ao interior e fazer mudanças no sistema político, nomeadamente ao nível regional e no sistema de representação parlamentar.
(...)
Mas, em que futuro poderão os cidadãos do Interior pensar, em particular os mais jovens, se não ocorrerem mudanças profundas nas políticas actuais que não dão voz e oportunidade ao interior, que acentuam o abandono do território, fragilizam a condição humana e económica, acentuam as desigualdades?
Como sempre, Senhor Presidente da República, queremos responder de forma positiva aos desafios, no âmbito de uma nova visão política, de reequilíbrio territorial da população e da economia, sustentada em razões de solidariedade nacional, dos valores ligados à identidade, à preservação do ambiente, de afirmação da competitividade e da coesão nacional.
Os Bragançanos não baixam os braços; na última década o PIB per capita subiu 20,6 pontos percentuais, a capacidade hoteleira triplicou, a economia evoluiu positivamente. Bragança tem sido referida em sentido positivo, em várias avaliações no âmbito da qualidade de vida e de gestão de algumas das suas principais instituições, e venceu este ano o prémio “Cidades de Excelência” na categoria de “Planeamento Estratégico”, promovido pelo jornal Planeamento e Cidades, com o “Plano Estratégico da Eco cidade.
Preservamos a História e a identidade de Bragança, valorizamos a História deste país, da qual Bragança escreveu importantes páginas, passando por períodos de glória, mas também de grande privação, sujeita a guerras frequentes e prolongadas.
Senhor Presidente, acreditamos no futuro do país e da região, termino agradecendo novamente a presença de Vossa Excelência, que muito nos honra, referindo-lhe que pode contar com o empenho, o querer e a valentia do povo Brigantino, que na sua bandeira ostenta a condecoração colectiva da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito."
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